No começo, a vida de Lene era só brincar na areia à sombra das laranjeiras, correr, pular, saborear as frutas do quintal... Mas Lene estava crescendo! Já, já era hora de estudar.
Eram cinco filhos: José, Davi, Lene, Dina e Vagner. Os dois últimos, mais crianças.
Os irmãos José e Davi já estavam na escola.
Na memória de Lene havia uma cena, não se sabe como nem quando, se real ou imaginária:
"Os irmãos estudando com o pai e levando umas bordoadas para aprenderem a lição..."
Depois de muito trabalho e economia, os pais de Lene conseguiram comprar uma fazenda. Então a família se mudou para lá, feliz! Eram, agora, proprietários. Tudo novo, casa de alvenaria e de tijolos à vista! Que felicidade!
José e Davi já estavam na cidade, estudando e só vinham para a fazenda nas férias. Era costume que todos os filhos fossem alfabetizados em casa pela mãe , D. Ana, e pelo pai Sr. Aldo, que eram bons não só na leitura como nas contas. Ah, se alguém tentasse enganá-los!
E assim chegou a hora de Lene ser alfabetizada.
D. Ana apresentou-lhe a cartilha, ensinando-lhe a leitura do alfabeto, que ficava no meio do livro.
Nas horas determinadas, ela dizia à filha, enquanto fazia o trabalho doméstico:
_ Lene, vamos estudar!
E Lene começava a chorar. E chorava, chorava... Eram muitas lágrimas, e dizia à mãe:
_ Minha cabeça está doendo!
Então o estudo ficava para mais tarde.
E assim acontecia por vários dias, até que a cartilha criou dois buracos dos dedos molhados das lágimas de Lene! E nada de aprender o tal do abecedário!
D. Ana começou a ficar preocupada:
_ Acho que minha filha é rude...
Na verdade o que Lene sentia era medo! Pensava:
_ Se não aprender, vou apanhar! Agora é a minha vez...
Aconteceu que Davi, o segundo irmão, teve que parar um ano de estudar, pois era muito criança e não podia entrar no ginásio ainda. Veio para a fazenda, voltaria para a escola no próximo ano, quando já teria idade.
Davi resolveu fazer uma roça, pois queria comprar uma bicicleta com o dinheiro da safra, imagine!
Ele era tão criança que não queria ficar sozinho no mato, assim Lene ia com ele e levava a cartilha. Enquanto Davi trabalhava, ela estudava, subida nas árvores ou nos galhos secos.
Aconteceu, então, a mágica da leitura! Em poucos dias, Lene já estava lendo e escrevendo. Acabara o medo!
Afinal, ela e Davi eram muito amigos. Companheiros de trabalho e brincadeiras.Uma coisa que Lene adorava era fazer para o "jantar" as pombinhas que Davi pegava na arapuca! Era uma festa!
O tempo passou e logo Lene já lia as cartas que José mandava e, também, já era capaz de escrever-lhe, contando as novidades da fazenda.
Assim chegou a hora de todos se mudarem para a cidade e estudar, pois as filhas "mulheres" não podiam estudar fora, sem a presença dos pais.
Seu Aldo e D. Ana não tinham estudo, mas tinham como meta estudar todos os filhos.
Comer, dormir, estudar eram atividades que faziam parte da vida, deviam ser realizadas com a mesma importância. Ninguém cogitava de não estudar.
Era era o sonho daquele casal.
E assim aconteceu!
Marlene
Esta é uma história real!